A Psicanálise ontem, hoje e sempre

23 May 2019

Já faz 119 anos desde que o jovem médico, nascido na Morávia, Dr. Sigmund Freud, recém-formado e especializado na área da neurologia, desde cedo, ainda como estudante, apaixonado pelos processos inerentes à psique humana, publicou sua grande obra: A Interpretação dos Sonhos (1900). Esta obra teve como grande contribuição para a humanidade a “descoberta” de uma área da topografia mental que recebeu o nome de Inconsciente.

 

 

 

 

 

Desde logo chamada de “a cura pela palavra”, a Psicanálise introduziu o homem em um novo mundo, o mundo do Inconsciente - instância que vários filósofos chegaram a idealizar, mas que somente o pai da psicanálise decodificou. Pela primeira vez, poderíamos estudar o enigmático Inconsciente, aquele que Schopenhauer, em sua obra O Mundo Como Vontade e Representação, observou como o que a tudo conhece, mas que ele mesmo não nos é conhecido.

 

Com A Interpretação dos Sonhos, mais especificamente em seu Capítulo VII, Freud nos brindou com a formulação de sua primeira tópica (teoria topográfica da mente humana), que divide a psique em três sistemas: o Consciente (Cs), o Pré-Consciente (Pcs) e o Inconsciente (Ics). O livro trata dos processos pelos quais nossa mente se enreda nos conflitos psíquicos, para dar origem aos sonhos; que nada mais são do que a realização de desejos que, em estado de vigília, não poderiam ser plenamente realizados. 

 

O estudo desta instância, tão importante para o conhecimento do ser humano, conduziu Sigmund Freud ao entendimento e formulação de sua teoria das Neuroses. Este conjunto de sintomas diversos, tornou-se, segundo o entendimento psicanalítico da época, o campo por excelência de atuação do Psicanalista. Freud entendia que o Psicanalista de seu tempo deveria apenas se preocupar em atender pacientes neuróticos, não sendo possível ao mesmo se dedicar também ao atendimento de “psiconeuróticos narcísicos”, ou seja, dos psicóticos. Justificável tal entendimento, pelo fato de que os neuróticos adquirem esta condição por conta dos conflitos psíquicos advindos de sua vida infantil e, sendo adquirida - estando na mente e não sendo da mente -, por conseguinte, será possível sua “cura”.

 

Ao contrário, os psicóticos padecem de condição psíquica não adquirida e sim componente integrante de sua mente. Sendo da mente, não será possível sua “cura”. Vale lembrar que a palavra “cura” está, aqui, exposta no sentido psicanalítico que ela possui, ou seja, a tomada de consciência do que está causando o conflito psíquico e, por isso, a possibilidade de uma ressignificação.

 

 

 

Assim, inicialmente, Freud classificou os tipos de neuroses (nosografia das neuroses) como sendo: Neurose Atual (subdividida em Neurose de Angústia e Neurastenia) - posteriormente, em um outro momento, também incluiu aqui a Hipocondria e Psiconeuroses (subdividida em Histeria e Neurose Obsessiva).

 

Freud entendia como Neurose Atual aquela em que não se deveria buscar suas raízes em momentos conflitivos do período infantil de nossas vidas e sim em conflitos presentes; conflitos atuais. Melhor dizendo: em desordens da vida sexual do presente. Neste tipo de Neurose, o fundador da psicanalise explica que os sintomas não resultam de uma expressão simbólica, resultam diretamente da ausência ou inadequação da satisfação sexual.

 

A Neurose de angústia seria, portanto, aquela que resulta de um acúmulo excessivo da excitação sexual e, portanto, de uma ausência de satisfação sexual. Já a Neurastenia se traduziria no apaziguamento inadequado da excitação sexual - da inadequação da satisfação sexual. A formação de sintomas, nas Neuroses atuais, teria, por isso, fonte somática. Sua etiologia estaria ligada a determinadas áreas do corpo humano. Existiria uma transformação direta da excitação sexual em angústia. Ao contrário, nas Psiconeuroses existiriam a formação de sintomas simbólicos, e sua etiologia estaria ligada à psique.

 

Em relação às Psiconeuroses, a Histeria apresenta quadros clínicos muito variados. Suas duas formas mais comuns seriam: a Histeria de conversão - em que o conflito psíquico é simbolizado no corpo daquele acometido pelo surto - e a Histeria de angústia – a angústia é fixada em algum objeto exterior (fobias). Já a Neurose obsessiva, em sua forma típica, o conflito se expressa por meio de sintomas chamados compulsivos/obsessivos.

 

 

Em verdade, sabemos hoje, pelo estudo da psicossomática, todo sintoma neurótico provém de conflitos psíquicos e, sendo assim, mesmo a inadequação da satisfação sexual, nas Neuroses de Angústia, provem daí. Afinal de contas, se existe uma negação no sentido de impedir a satisfação sexual, esta negação será sempre proveniente de um conflito instalado na mente. A excitação somática será apenas um gatilho que iniciará a instalação das defesas egóicas e, consequentemente, a aparição de sintomas denominados simplesmente por neurose. Dizendo de outra forma: o conflito é atual, porém, de certa forma, correlacionado com antigas repressões infantis. Seja qual for o elemento precipitador da aparição de sintomas neuróticos, sempre irá existir a presença de uma expressão simbólica de conflitos mais antigos.

 

Por isso, hoje, o conceito dado por Freud à Neurose Atual talvez tenda a desaparecer da nosografia psicanalítica das neuroses. Haveria, assim, uma real evolução do conceito desta neurose na psicanálise. 

 

Também o conceito de pacientes que podem ser analisados mudou bastante. Basta lembrar que, até pouco tempo, entendia-se que determinado grupo de pessoas não estariam incluídas nas possibilidades de serem ajudadas por um Psicanalista, entre eles: os homossexuais, os analfabetos, os pobres, os psicóticos, os pacientes de “difícil acesso”, etc.

 

Como já tivemos a oportunidade de escrever acima, Freud entendia que ao psicanalista caberia a tarefa de tratar apenas dos pacientes neuróticos, excluindo da clínica psicanalítica os psicóticos. Atualmente este entendimento tem sido modificado sensivelmente. O Psicanalista da atualidade deverá estar preparado para atender em seu consultório, no setting psicanalítico, também pacientes portadores de falhas estruturais da mente. Deverá, pois, estar preparado para o atendimento dos psicóticos, dos neurótico abandônicos (boderlines), dos pacientes de “difícil acesso”: os Somatizadores – que no lugar de pensar e fantasiar, expressam a angústia através do corpo; os Narcísicos e, os mais difíceis de serem trabalhados, os escudados por uma cápsula autística – com relação a estes, bom que se esclareça, não os de natureza genético-neurológica, mas os autistas psicogênicos ou autistas secundários, aqueles que resultam de uma fixação ou regressão à etapas mais primitivas do desenvolvimento (Zimerman, David). Contudo, ressaltamos que com relação a estes “novos” pacientes, a clínica psicanalítica deverá atuar como coadjuvante ao tratamento psiquiátrico. Nunca de forma isolada.

 

 

Outra preocupação crescente entre os atuais Psicanalistas é o aparecimento, cada vez maior, de pacientes em estados depressivos e fóbicos. Não é demais lembrar que a Organização Mundial de Saúde e a Organização Mundial de Saúde Mental vem sistematicamente alertando no sentido de informar que, até o ano de 2020, a depressão será a principal doença relacionada a casos de incapacidade no mundo. A mesma organização afirma que 75% dos casos de depressão não recebem o tratamento adequado.

 

Por isto mesmo, insistimos, é que nossos consultórios deverão estar preparados para a crescente demanda de pacientes que procuram a psicanálise como forma de ajuda no tratamento deste grande mal que aflige a humanidade. Desta mesma humanidade que cada vez mais cobra de si algo que é impossível a todo o ser humano, qual seja: a perfeição, a juventude eterna, a felicidade constante e a todo custo.

 

Vale, pois, por fim, ficarmos com as palavras do Pai da Psicanalise, Dr. Sigmund Freud: “Poderíamos ser muito melhores, se não quiséssemos ser tão bons”.

 

Dr. Fabiano Costa, 

Psicanalista/ABEPE.

 

 

 

 

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